sábado, 26 de maio de 2012

uma música para o fim de semana - Márcia e JP Simões





É tão fácil gostar desta canção.
A letra é densa e complexa, mas repleta de delicadeza como um dente de leão quando é soprado por uma brisa gentil.


Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu

E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo do meu
E uma trança arrancou
O sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu

Dá-me o mar, o meu rio, a minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu o caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei, pr'a lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Pr'a voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber...

Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada,
O meu barco vazio na madrugada
Vou-te deixar no frio da tua fala
Na vertigem da voz quando se enfim se cala


A voz de Márcia não fica atrás da letra e a voz grave e arrastada de JP Simões é o contraponto ideal à voz da sua parceira, completando e complementando-a sem no entanto destoar ou perturbar o ambiente que esta música tem, muito pelo contrário.

A guitarra está de igual para igual com as vozes e a letra, subtil e igualmente delicada. Que grande música!


Bom fim de semana :)





terça-feira, 22 de maio de 2012

(elegantes) compras de fim de semana - Bernardo Sasseti


A morte tem destas coisas. Por ela fui procurar dois álbuns de Bernardo Sasseti que já os conhecia mas que não os tinha.
Isto chateia-me porque isto significa que fui ultrapassado pela morte. Na verdade já deveria ter Alice e Ascent há bastante mais tempo, quando Sasseti era vivo. É assim que se prestam as verdadeiras homenagens, em vida.

Eu gosto da elegância, gosto da delicadeza e do minimalismo Gosto da economia de gestos, de palavras, de notas. Gosto da discrição. Gosto de quem traz a luz, sem estar debaixo dos focos da ribalta.
Por isso gosto tanto de Sasseti. Ele era tudo isto. E mais, era genial.

Não sendo no entanto um ignorante, mas sem conhecer extensivamente a obra de Sasseti, encontro em Alice e Ascent, todas as características que enumerei. 
O minimalismo elegante da música, a sua beleza discreta mas poderosa. Universos musicais dos quais uma vez se entrando não apetece sair e quando se sai ansiamos por lá voltar.


A primeira vez que ouvi Alice a sério, os meu olhos tornaram-se brilhantes de água.
É a banda sonora composta para o filme homónimo que conta a história de um pai cuja filha, Alice, desaparece na cidade de Lisboa.


Sasseti retrata na perfeição o rosto e a urbanidade de Lisboa.
É um trabalho muito imagético. Os ruídos da cidade, o seu arquejar, a chuva que cai, carros que serpenteiam atrás de outros, passos que seguem outros passos, rostos que não olham para outros rostos, fechados em pensamentos individuais.

A vida repetida e anónima que corre e prossegue indiferente ao drama, à angustia isolada e à respiração ofegante de Mário que percorre a cidade à procura de Alice.

Através da música de Sasseti sentimos a solidão e a angustia deste pai que solitariamente procura incessantemente a filha, mas no entanto fazendo-o de uma maneira quase obcecada,ele não a torna excessivamente dolorosa ou inquietante. Pelo contrário. É elegante, simples e bela.



Sasseti expurga da sua música o acessório e faz-nos concentrar apenas na simplicidade das emoções lentas e melacólicas do seu piano, do clarinete de Rui Rosa e do contrabaixo de Yuri Daniel. 


O segundo álbum que comprei este fim de semana foi Ascent.
Sasseti consagra em Ascent, duas grandes paixões suas: o jazz e o cinema, a música e a imagem.
Ele utiliza aqui dois trios. Daí o dois que aparece na capa do álbum. A uni-los está o piano de Sasseti.


O primeiro trio é o mais clássico que o jazz pode oferecer. Um piano, um contrabaixo e uma bateria. 
O segundo aproxima-se da música de câmara. É constituído pelo piano, um violoncelo e um vibrafone e expõe a vertente cinéfila deste álbum, recuperando com novas roupagens, temas que fizeram parte de bandas sonoras Bernardo Sasseti para filmes como A Costa dos Murmúrios.

Também à semelhança de Alice, o contido Ascent, recorre à introspecção, ao minimalismo e à elegância da sua música para chegar ao nosso âmago.
Fá-lo de novo, de uma maneira sublimemente suave, quase se nos apercebermos que está a fluir por nós a melhor música que se faz em Portugal.
E sempre que o expressivo violoncelo de Adja Zupancic se faz soar, algo de mágico, algo de extraordinário acontece. Oiçam-no e percebem o que quero dizer.

A faixa que encerra o tema, Da Noite ao Silêncio, o violoncelo é absolutamente essencial na caracterização daquela que é para a mim a música mais bonita de Ascent. O som arrastado e lamentoso a lembrar chuva a a bater e a escorrer numa janela (já olharam para a capa?).

Mas como já tinha colocado Da Noite ao Silêncio, aqui, escolho agora Do Silêncio Revelação. O tema que abre Ascent.
Para além do delicado piano de Sasseti, do maravilhoso violoncelo de Adja e do subtil vibrafone de Lezé, o silêncio, no arranque do tema, é por ele próprio um instrumento não menos belo e importante que os restantes.




Comprei estes dois álbuns no fim de semana passado.e têm sido minha companhia habitual nas minhas noites. 
Cada vez que os oiço deleito-me com os seus sons, com as suas nuances e a cada audição descubro sempre algo de novo. O que me faz de retornar sempre a eles.
São dois álbuns que se ouvem de olhos fechados e de alma aberta.

sábado, 19 de maio de 2012

uma música para o fim de semana - Bernardo Sasseti


A propósito da morte de Bernardo Sasseti, coloquei na altura, um breve post no FB com o extraordinário tema Noite composto para a banda sonora do filme Alice do realizador português Marco Martins.

A acompanhar o post tinha uma pequena frase tirada da canção 125 Azul de Luís Represas que dizia "Deus leva os que ama".
Tive um comentário que acrescentava - Deus é egoista.
Sorri quando o li e coloquei um like sincero.


Mas é verdade. No fim, como Deus (admitindo que ele existe) nos ama a todos, acabamos todos por ser levados por Ele.
Portanto ter-nos levado Bernardo Sasseti aos 41 anos, foi no mínimo uma decisão apressada e como tal egoista. Ele podia-nos ter deixado ficar com o Bernardo mais uns anitos razoáveis.

Nesse dia ou talvez no dia seguinte e ainda a propósito desse post no FB recebi, também via FB uma sugestão para ouvir Da Noite ao Silêncio, a faixa que encerra o álbum Ascent de Sasseti.

Sabia que este álbum existia na sua carreira mas não o conhecia de todo.
Quando ouvi este tema pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Tal como Noite, deixei-me abraçar por este tema.
É lento, elegante, está repassado de melancolia, de uma certa tristeza, e solidão mas acima de tudo é um tema lindo, lindo.

Sempre pensei que a tristeza não tem que ser feia. Apenas porque algo é triste não tem que ser posto de lado, rejeitado e afastado dos nossos corações.
Tudo o que surge inspirado pela tristeza ou que invoca este sentimento é usualmente bonito ou até muito belo.

Da Noite ao Silêncio prova isso mesmo, que a tristeza pode ser muito bela.
Prova igualmente que Deus, continuando a admitir que existe, foi realmente egoista ao levar Bernardo Sasseti tão cedo para longe de nós.
Enfim, ninguém é perfeito.




quarta-feira, 16 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

estou de regresso :/


Após quinze dias incríveis a viajar pelo Vietname, vejo à chegada que o mundo está um pouco melhor, que Portugal viu o verniz da civilização estalar, está mais resignado e bastante mais pobre e triste.

O mundo está um pouco melhor pela vitória de Hollande nas presidenciais francesas. Torcia por ele. Alguém a pensar diferente do rebanho, mesmo que utopicamente, é sempre positivo.
No fim tudo irá ficar na mesma. As ideias de Hollande serão trucidadas pela voragem da austeridade imposta pela neo nazi Merkel que é quem contribui com as massas para a Europa e que os seus vassalos obedientemente seguem.
Não ter que olhar e ouvir e olhar o palhacito Sarkozy é um alivio.

Não há dúvida que em tempos de crise, o verniz da civilização estala rapidamente e a dignidade desaparece. Quando apanhei wi fi num hotel algures no Vietname, soube dos disturbios e até pilhagens que tinham acontecido em Portugal devido à promoção do Pingo Doce. Não fiquei surpreendido. Quando há grandes necessidades e se tem a ganância por parceira, os brandos costumes perdem-se.
Não estou contra a promoção, parece até que é possível que venham a haver mais, mas o Pingo Doce podia ter feito a coisa com mais classe.

Deu também para perceber que somos cada vez menos um país de indignados e cada vez mais de resignados. O movimentos dos indignados enfraqueceu fortemente passado um ano. Sinais que a esperança está mais longínqua e a esvair-se. Quem reclama, acredita...

Mais uma vez o Benfica perdeu o campeonato. Esta doeu-me. Porque Jorge Jesus perdeu o campeonato de futebol para um cepo como o Vitor Pereira e isso só o torna um cepo ainda maior. Nada mais a dizer.

Portugal está mais pobre e eu mais triste pela morte de Bernardo Sasseti.
A par de Sequeira Costa e António Pinho Vargas, Bernardo Sasseti é e será sempre para mim um dos grandes senhores do piano nacional.
Conheço pouco da sua vida pessoal, mas conheço alguma coisa do seu percurso musical.
Dele, há para mim uma peça escrita por si que pessoalmente traduz a excelência do músico que era, chama-se Noite e foi composta em 2005 para o filme Alice de Carlos Martins.
Até sempre Bernardo.




quinta-feira, 26 de abril de 2012

estou de partida :)


Daqui a vinte anos, tu estarás mais desapontado com as coisas que não fizeste do que com as coisas que fizeste.
Portanto, atira as amarras fora, navega para fora do porto de segurança.
Apanha os ventos de mudança nas tuas velas. Explora. Sonha. Descobre.
Mark Twain


Vou seguir o conselho de Mark Twain. Estou de partida para o Vietname :)




Tirado daqui

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Grande Ecrã - Assim Assim


Tinha ficado com boas impressões quando vi o trailer do filme Assim Assim do realizador português Sérgio Graciano, mas não as suficientes para vencer a inércia (e o preconceito) para ir ver cinema português.
Mas felizmente li a crítica de Jorge Mourinha no Ípsilon. Ele disse tão mal do filme que me convenceu a ir vê-lo. Ainda bem.

Assim Assim, é um filme onde um mosaico de personagens com aparições mais ou menos breves, discorrem sobre a vida e sobre as suas vidas tendo por palco Lisboa. 

Histórias individuais, aparentemente separadas entre si mas que acabam por se entrelaçar umas nas outras.

O argumento de Pedro Lopes aborda mentiras e verdades, amores, desamores e traições. Aborda a homossexualidade, a solidão, a amizade, as inseguranças e incertezas. 
À medida que o filme se vai desenrolando certamente que quem o vê reconhece-se em algumas das pequenas histórias, entenda-se reflexões, que nos são apresentadas nos cem minutos que dura o filme.

Assim Assim alicerça-se em diálogos bem construídos, com um toque humor inteligente aqui e ali, que não fascinando são no entanto bastante bons e estão longe da superficialidade.
Tem um começo auspicioso e prometedor com as conversas paralelas de dois pares de amigos à noite numa esplanada no Chiado.

Para o número invulgar de actores envolvidos é de surpreender a qualidade e segurança das suas prestações. É delicioso o segmento de Margarida Carpinteiro na consulta com o Gonçalo Waddington e destaca-se a consistência do par Joaquim Horta e Ivo Canelas.

A realização é honesta e muito fluída. A utilização muito frequente de campos/ contracampos ao longo do filme que tanto aborrece Jorge Mourinha torna-o interessante e atraente. Concentra a nossa atenção nos personagens e afasta-nos do acessório. O que longe de ser um pecado é uma virtude.

Creio que Jorge Mourinha deve-se ter enganado na sala e foi ver outro filme qualquer. Mas de certeza que não foi o filme de Sérgio Graciano.
Assim Assim não é uma obra prima, mas é definitivamente uma boa surpresa. Sinais do novo cinema que se faz em Portugal.

Ah, tem também um excelente genérico.