terça-feira, 12 de julho de 2011

uma palmadinha nas costas


Ontem fui dos que ajudaram a entupir o site da Moody's.
Fi-lo não por discordar da desclassificação, acredito sinceramente que tenha razão e que até seja verdadeira, mas por pensar que baixar quatro níveis de uma só vez é desproporcionado e desnecessário.

Deveria ter-nos sido concedido o benefício da dúvida face ao que está a ser feito pelo actual governo português. É uma questão de bom senso.


De qualquer maneira acredito que para Passos Coelho, o tal "murro no estômago" que lhe deram foi o melhor que podia ter acontecido.

A união que Portugal demonstrou ao enviar lixo para a Moody's e ao atacar a sua página na internet, entre outras acções, foi o maior "sobressalto cívico" e patriótico que nós tivemos nos últimos anos.
Foi a maneira de o país transformar o murro no estômago dado pela gananciosa Moody's numa grande e nacionalista palmadinha nas costas de Pedro Passos Coelho.
Tudo que o Primeiro Ministro fizer está publicamente validado.

Neste momento a única coisa que Portugal não quer é ser lixo. Venha a recessão, a austeridade, o desemprego e o aumento da inflação. Lixo é que não.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Grande Ecrã - A Lenda de Felix Bush


Ter no mesmo filme Robert Duvall e Bill Murray foi motivo suficiente para para ir ver A Lenda de Félix Bush.

Félix Bush (Robert Duvall) é um eremita por opção. Alguém que se isolou do mundo por causa de um acontecimento no seu passado longínquo.
Passados mais de 40 anos sobre a sua decisão de reclusão, Félix decide saber o que as pessoas contam sobre ele e simultaneamente arranjar forças para contar e desvendar o segredo que tanto o atormenta.




Para isso contrata o agente funerário local e o seu assistente, Frank Quinn (Bill Murray) e Buddy (Lucas Black), e pede-lhe que organize o seu funeral.
Félix vai ter que entrar em contacto directo com o seu passado e confrontá-lo através das pessoas que directamente ou indirectamente participaram nele.

A Lenda de Félix Bush é um filme de época (década de 30) com a fotografia a retratar fantasticamente todo o ambiente pelo qual os personagens se movimentam.

Se Robert Duvall é um senhor no seu papel e domina o ecrã, Bill Murray é extraordinário, introduzindo um certo tipo de humor irónico que lhe é muito típico e fácil de encontrar nos filmes onde actua.

O argumento tem bom ritmo e cativa. Tem o mérito de ir aumentando as expectativas à medida que o tempo vai passando relativamente ao segredo, mas quando este é finalmente revelado, sentimos um ligeiro desapontamento e frustração. É um final que parece algo desajeitado, pensado em cima do joelho. "Muita parra para pouca uva".

Mas globalmente é um filme bem filmado por Aaron Schneider, seguro, muito coerente e consistente, principalmente ao nível das várias representações.




quinta-feira, 7 de julho de 2011

ressaca de férias


Estou naquela fase de ressaca de férias.
O corpo já chegou, mas a cabeça ficou lá atrás a fazer o check-in para o regresso a Portugal.
Ainda estou inebriado com a beleza do Lago Nakuru no Quénia, ainda consigo ouvir o restolhar das folhas e ramos partidos dos barulhentos e imprevisíveis chimpanzés no Parque Nacional Floresta Kibale no Uganda e ainda tenho na memória a majestosidade e doçura dos belos olhos castanhos dos carrancudos gorilas da montanha no Parque Nacional dos Vulcões no Ruanda.

Ajuda a suportar saber que parte do meu subsídio de Natal deste ano vai ser roubado e que vai certamente acabar nas mãos da banca, que o BCE voltou a subir as taxas de juro e que o IVA volta a subir este mês.
Mas saber que não vou ouvir Sócrates a dar entrevistas, que Fernando Nobre volta para onde nunca devia ter saído e que os baldas dos juízes que andaram no copianço tiveram que repetir o exame também ajuda ao regresso.


quinta-feira, 16 de junho de 2011

até daqui a umas semanas


A Esteira vai seguir as pisadas do irmão Carimba o Passaporte, vai de férias durante umas semanitas.
Espero que ele encontre o que deseja. Se encontrar vai ser o máximo!




Até lá pessoal e entretanto pode ser que com um pouco de sorte o Fernando Nobre não se torne o próximo Presidente da Assembleia da República e os juízes que andaram na balda (a copiarem forte e feio) apanhem o que devem: um chumbaço!!
Se bem que vergonha não é roubar, é ser apanhado a roubar... ;)

terça-feira, 14 de junho de 2011

um poema de... Álvaro de Campos


Ontem a propósito da comemoração do 123º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, encontrei no Facebook alguém que tinha lançado este poema de Álvaro de Campos.

É sobre cansaço. Não o fisíco, mas o da alma.
Aquele cansaço que vem de dentro, das entranhas, que torna a visão turva e o pensamento obscuro.
Aquele cansaço que não se aplaca e que pesa uma enormidade.

Não conhecia este poema. Grande pecado meu!
Aqui fica a minha redenção.


O que há em mim é sobretudo cansaço —

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos
09.10.1934

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Pessoa 123


Dá vontade de parafrasear este dia com o spot do 5 Minutos de Jazz de José Duarte:

1...2...3, 123 anos de Fernando Pessoa!

Usualmente quando se trata de efemérides relacionadas com Fernando Pessoa, recorro a poemas de Ricardo Reis, o meu heterónimo preferido, ou então ao ortónimo, Fernando Pessoa.
Mas desta vez levo ao palco um poema de Álvaro de Campos que gosto muito - Apontamento.

Segundo a biografia que Fernando Pessoa lhe atribuiu, ele nasceu em Tavira a 15 de Outubro de 1890. É alto com cerca de 1.75m e estudou engenharia naval em Glasgow, Escócia.


Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


Álvaro de Campos 1929

para além do sonho


A Nasa na sua página APOD do passado dia 8 de Junho publicava esta fotografia.
Mostra o vaivém Endeavour acoplado à ISS.

O Endeavour foi o quinto e último vaivém a ser construído.
O seu objectivo era substituir o Challenger que explodiu a 28 de Janeiro de 1986.
Fez o seu último voo em Maio passado, 19 anos depois de ter voado pela primeira vez em Maio de 1992.

Esta fotografia foi tirada a partir da nave de abastecimento russa Soyuz TMA-20.
É uma daquelas fotografias cuja beleza vai para além do que somos capazes de sonhar.