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sábado, 21 de março de 2015

dia mundial da Poesia - Inkheart





Numa recente entrevista dada ao jornal de literatura Porque Escreves?, Inkheart, diz que não nasceu, não tem nome. Tem uma alcunha.
Admitiu que é fascinado, pelo mundo das sombras, pela ausência de cor, pelos caminhos tortuosos e pela raiva. É atraído pelo vazio, porque é o vazio que o preenche.

A morte é algo que lhe atrai porque não consegue compreende-la. Vê-a com uma libertação. O fundo suave e almofadado de um poço negro.
Em tempos já a testou, já a procurou vária vezes, apesar de não ter sido aceite por ela. Agora não.
- "Um dia Ela há-de me encontrar e explicar-me o vazio de que sou feito."

Gosta de poesia, gosta de pequenos contos. Tal como as curtas metragens, afirma que é uma arte difícil de dominar, de ser concebida.
Num curto espaço de tempo, num curto espaço de palavras, tem que se desenvolver uma narrativa, eventualmente até uma personagem, Tem que ter um fim, Mesmo que seja fins abertos. Fins que não são fins.

Nessa mesma entrevista, afirmou-se como um poço de contradições, mas pouco interessado em explicá-las ou até desfaze-las.
Não acredita em explicações porque elas atropelam-se a si próprias. São confusas e pouco interessantes. Além que quem as pede, não as percebe, porque não são as querem ouvir.
Porque quem as faz, cede à tentação de o conduzir por caminhos que não são os seus, do que deixar ser o que é.
- "Não gosto de responder a perguntas pessoais porque sistematicamente elas são intrusivas."
Inkheart acrescenta:
"A eloquência do silêncio, o seu grito, o olhar, as expressões, são mais esclarecedoras que longas frases. Porque elas vêm do intimo, do âmago. São intrínsecas. Mas essas subtilezas não são entendidas por quem pede explicações. Quem precisa de explicações sobre o que somos, precisa da superficialidade. Não usa os olhos da alma. Prefere usar os olhos dos ouvidos."

Lombadas de Folhas, o jornalista, pergunta-lhe como Inkheart se define, como se vê ele próprio, nas suas próprias palavras.
- "Defino-me como um borrão de tinta da china caído sobre uma folha de papel"
Uma caneta preta de tinta preta, não para de rodar por entre os seus dedos.
- "É das suas ramificações espalhadas que nascem as letras com que escrevo. Por isso escrevo linearmente, despreocupadamente, frequentemente sem preocupações estéticas ou formais.
Gosto do ritmo e do colorido das rimas, de andar ao sabor delas como um vagabundo que salta de rua em rua, à procura de nada."

Lombadas faz uma última pergunta.
- Quais os poetas que gosta mais?
- Fernando Pessoa, Florbela Espanca e António Aleixo
O jornalista abanou a cabeça para cima e para baixo porque tinha compreendido o alcance e a abrangência daquela resposta, assim como a diversidade que ela implicava.
- Sente que é influenciado por estes três poetas?
- Não. Se fosse, nem sequer saberia o que com fazer elas. - Acabámos?

O jornalista disse que sim e reparou pela primeira vez que escorria tinta negra pelas pernas da cadeira, como se elas sangrassem. Também reparou que a tinta não manchava a madeira, nem o chão de negro apesar da sua abundância.


Indistinto

o segredo
com medo
apontou o dedo
ao arvoredo

mas ele caiu,
até sei que admitiu,
que fingiu que riu,
 e que nada sentiu


mas o espanto,
daquele pequeno recanto,
 é de procurar tanto,
o seu grande encanto

o que não é meu
de todo serei eu
o muito que tremeu
por nada se pareceu

não queriam que fosse o que sou
 o ramo onde o pássaro não poisou
o chão que ninguém pisou
e a tinta do parque que não secou


Inkheart


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

31 de Dezembro de 2014





O que há em mim é sobretudo cansaço —


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos
09.10.1934


terça-feira, 29 de julho de 2014

um poema de... Florbela Espanca





Desalento

Às vezes oiço rir, é ’ma agonia
Queima-me a alma como estranha brasa
Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia
Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa!

Tenho sede d’amar a humanidade…
Eu ando embriagada… entontecida…
O roxo de maus lábios é saudade
Duns beijos que me deram n’outra vida!

Ei não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
Que só saber chorar, de ser assim…

Gosto da noite, imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!

Florbela Espanca


domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura (1942 - 2014)


Regra geral quando morre alguém que admiro muito, seja de quem área for, exclamo "Que merda!"

Significa que é alguém que faz falta, que era alguém que tinha mais para dar, que era alguém que já tinha dado muito, que a sua perda foi inesperada e acima de tudo era alguém que tinha conquistado a minha admiração e até afecto.
Há poucos minutos soltei esta mesma exclamação. A morte de Vasco Graça Moura apanhou-me de surpresa. Não sabia que sofria "de doença prolongada", como quem diz à socapa, cancro.

Conhecia muito pouco o lado político - fundador do PSD, secretário de estado e eurodeputado durante dez anos - e profissional de (advogado) Vasco Graça Moura.
Mas tinha e tenho, uma profunda admiração por toda a sua (vasta) obra literária enquanto homem de letras em todas as suas vertentes: ensaísta, cronista, tradutor, antologista, escritor, poeta e crítico, sem esquecer todo o seu papel na gestão da cultura nomeadamente, enquanto director RTP, da Imprensa Nacional - Casa da Moeda. e recentemente director do Centro Cultural de Belém.

Entre muitos e variados prémios literários, foi vencedor do Prémio Pessoa em 1995 e Prémio Virgílio Ferreira em 2007.
Ainda em 2007 haveria de ganhar o Prémio de Tradução do Ministério da Cultura italiano pela excelênciada sua tradução da Divina Comédia de Dante Alighieri.

Era abertamente um acérrimo crítico do acordo ortográfico.




Enquanto poeta Vasco Graça Moura, tenho um profundo carinho por O soneto do Amor e da Morte. É um dos poemas mais bonitos, doces e sentidos da sua poesia.
Já aqui antes tinha colocado este texto a propósito deste mesmo soneto.

Volto a ele de novo. Nunca é demais rever ou reler o que é bonito.
Espero e desejo que tenha sido assim os seus últimos momentos.

:(


soneto do amor e da morte 

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"


terça-feira, 8 de abril de 2014

A nuvem





Todos os dias deito-me numa nuvem. Uma nuvem especial. A minha nuvem. 

Gosta que eu me atire para cima dela e que brinque com ela como ela gosta de brincar comigo no seu silêncio. Gosta que eu esfregue o meu rosto nela antes de adormecer.
Não se molha quando choro porque enxuga-me as tristezas antes de elas correrem pelos meus olhos. E quando me rio com ela, ela também se ri com um felpudo arrepio de satisfação. 

Sabe o que me vai na alma todas as noites.
Ela ouve-me sem que eu fale, fala comigo sem que eu a oiça. Sabe do que preciso sem que eu lhe conte e protege-me dos pesadelos. Mas não dos reais. Infelizmente.
Propositadamente faz-me quase indetectáveis cócegas quando se enrola e fecha as suas pontas fofas e aveludadas sobre mim, formando um casulo de paz para a metamorfose da noite.

A minha nuvem é suave como todas as nuvens. Não é grande, nem pequena. É à medida do que preciso.
Mas para mim é uma bela e altaneira nuvem. Não nem nome porque não precisa. É só a minha nuvem. A nuvem.

Mas Fernando Pessoa também deve ter tido uma...


Vaga, no azul amplo solta, 
Vai uma nuvem errando. 
O meu passado não volta. 
Não é o que estou chorando. 

O que choro é diferente. 
Entra mais na alma da alma. 
Mas como, no céu sem gente, 
A nuvem flutua calma. 

E isto lembra uma tristeza 
E a lembrança é que entristece, 
Dou à saudade a riqueza 
De emoção que a hora tece. 

Mas, em verdade, o que chora 
Na minha amarga ansiedade 
Mais alto que a nuvem mora, 
Está para além da saudade. 

Não sei o que é nem consinto 
À alma que o saiba bem. 
Visto da dor com que minto 
Dor que a minha alma tem.


Fernando Pessoa


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

dia dos Namorados





O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.

Fernando Pessoa


domingo, 19 de janeiro de 2014

Ary 30




Quando penso em Ary dos Santos, penso em alguém com voz tonitruante e exuberante que se impunha pela presença, pelas suas palavras. 
Alguém polémico, de ideais fortes. Alguém que seria difícil de derrotar numa discussão.
Seria alguém tipo... força da natureza.

Esta imagem mais do que em fotografias ou imagens na televisão são-me transmitidas pela força da sua poesia. 
Creio firmemente que a poesia não se finge - apesar de Fernando Pessoa aparentemente afirmar o contrário em "O Poeta é um fingidor"- ela é o espelho de quem a cria, de quem a imagina, de quem a concretiza.
A poesia, para quem tem esse dom, é a melhor maneira possível de conhecer alguém.
Ary dos Santos tinha também olho para a Vida. Observa-a de uma maneira particular, muito sentida, muito delicada. Dela retirava o que havia de mais violento e mais sublime.

A prova deste "crime" está em variados poemas como de Poeta Castrado, Não!, Estrela da Tarde, A Máquina Fotográfica, Os Gatos, Os Putos, e Quando um Homem Quiser.

Mencionei o último poema num texto para uma música para o fim de semana que escrevi em finais do ano passado quando escolhi uma canção dos Deolinda sobre o Natal.
O Natal já lá vai há quase um mês. Mas quando o tema é poesia, seja de Ary dos Santos ou de outro poeta qualquer, esta não tem limites temporais. É apenas invocada, recordada, recitada quando o queremos ou desejamos.

Aproveito a passagem do dia de ontem, sobre os trinta anos da sua morte - Ary dos Santos morreu em 18 de Janeiro de 1984 - do silenciamento da suas palavras escritas, bem mais poderosas que as suas faladas para trazer, para relembrar esse extraordinário poema feito simultâneamente de dor e delicadeza e cujo um verso se tornou parte do imaginário português - "Natal é em Setembro, é quando um homem quiser".


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Ary dos Santos


sábado, 21 de dezembro de 2013

chega hoje





Breve o inverno virá com sua branca

Breve o inverno virá com sua branca
Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
Como um rio passemos.


Ricardo Reis (17.07.1914)


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

sobre a Morte





Culturalmente temos tendência a suspende-la, a ignorar, a ausenta-la daquilo que a mais caracteriza, daquilo que a torna natural, a vida.

Vemos a vida como uma moeda de uma só face. Sabemos intrinsecamente que é uma inevitabilidade mas "esquecemos-mos" dela, do equilíbrio que ela representa, da renovação que permite, a outra face dessa moeda, a Morte.
Afastamo-nos e afastamos os nossos putos dela. Não os deixamos ir aos funerais e contamos histórias que tal senhor ou tal senhora foi dormir para céu. Como se os quiséssemos proteger de algo que provavelmente e culturalmente não deveriam/ deveríamos ser protegidos. Mas sim plenamente e naturalmente, porque é disso que se trata, introduzidos nesse conceito.

Sou um ocidental, portanto partilho e sinto em mim esse peso, esse medo cultural da morte.
Pessoalmente o que mais me assusta na morte não é a morte em si, mas não a perceber, não compreender o que ela é. Algo que só perceberei quando a tiver à minha frente. Faz sentido.
Como ser vivo que sou, só percebo a vida. Não percebo, não consigo conceber o seu oposto.

Por vezes, à noite quando o meu pensamento vagueia à solta pelos cantos do meu quarto escuro, eu oscilo indeciso de um lado para o outro, como uma bola de ping pong atirada de um lado para outro da rede.
Tanto quase fico com um pavor dela, desse desconhecido inevitável, como por vezes fico fascinado, quase impaciente por a sentir, por a perceber.

Tenho inveja de outras culturas que como a oriental, em que a morte é algo que coexiste com a vida. Uma tão natural como a outra. A morte é encarada como um passo em frente. Uma evolução, uma reaprendizagem, uma oportunidade de redenção não punitiva. Como na escola. Só se passa de ano, depois de se ter aprendido o anterior.
Algo (entre muitas outras) que me desagrada na religião cristã. Os bons vão para céu, os maus para o inferno e os assim-assim para essa coisa cinzenta indistinta que é o purgatório. Uns tantos anos aqui, para depois passares a eternidade acolá.
É um conceito simplório, redutor. Pouco imaginativo. Não se aprendem lições.

Talvez a morte talvez não tenha que ser má. Certamente que não, tento eu acreditar como um ocidental que inutilmente foi ensinado a virar a cara, a passar ao lado dela.
Há quem procure nela um refúgio para os fardos da vida.
Um aparte. Ao contrário do que genericamente se pensa, não considero um suicida como um covarde. Pelo contrário, penso que é preciso muita coragem para dar o salto para aquilo que se desconhece, dar o salto para o outro lado. O lado "escuro" e ostracizado da moeda que na outra face ostenta a vida.

A morte pode ser seja algo bom. Pela lógica deverá ser aquilo que as nossas crenças permitem ou acreditam que seja. 
A crença por definição resulta da fé. Na fé supostamente encontramos a esperança. A fé é positiva, é desejável. Não há portanto motivos para termos medo dela. Ninguém com fé pode crer que a morte é algo negativo. Não faria sentido ter fé se não fosse assim.
Outro aparte. Não sou uma pessoa de grande fé. Sou daqueles que quando chegar a minha vez logo se vê. Isto se houver algo para ver.

Quase todas as religiões, particularmente a budista, por a qual tenho uma grande simpatia e empatia, a vêm como o fim de trajecto, um caminho percorrido. Como a passagem de uma lagarta não particularmente bonita para uma delicada e bela borboleta. Uma metamorfose. Isto se o merecermos do ponto de vista budista.
Mas sempre como um processo mais ou menos lento de transformação, de evolução. Precisamos de ser várias vezes lagartas, mas cada vez mais perfeitas, para chegarmos ao nosso destino final: a borboleta que voa. O Nirvana.
"Morrer não é acabar, é a suprema manhã" escreveu uma vez Victor Hugo.

Para além de necessária, talvez a morte seja positiva. Talvez seja doce. Talvez seja terna. Principalmente se bem acompanhada.
Não gostava que ela fosse repentina. Gostava de sentir a sua chegada sem pressa. Que fosse suave. De a ver nos olhos e sorrirmos um para o outro. Dois desconhecidos que finalmente se vão conhecer.

Tropecei neste poema de Vasco Graça Moura por acaso. Gostei de imediato da sua doçura, de não rejeitar a morte, mas apenas a ideia de morrer sozinho, ou de não ter um amor. Esses sim, parecem ser os seus verdadeiros medos. E deve ter razão.
Revi-me nele. Depois de o ler várias vezes, também talvez gostasse de ter uma mão a segurar a minha. Nunca tinha pensado nisto.
Talvez seja mais fácil, mais tranquilo, enfrentar o supremo desconhecido desta maneira.
E à falta de uma mão, preferivelmente a complementá-la, seria bom ter uma pata. Gostaria muito de ter um animal ao meu lado. Quer seja um velho companheiro de vida, ou um recém chegado a ela. Ir-me-ia trazer conforto tê-lo comigo.

Imagino a Morte como uma senhora elegante usando um longo manto de um profundo negro de veludo, de rosto pálido e misterioso, mas sereno, delicado e de sorriso compreensivo. Alguém que reclinando-se sobre nós estende a mão, fazendo a transição das mãos que ficam com a que parte, ou que na ausência das terrenas nos cede gentilmente a sua mão para ajudar a fazer a tal passagem de lagarta para borboleta. 



Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.


Vasco Graça Moura


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

centenário nascimento Vinicius de Moraes


Brasileiro, de Rio de Janeiro, Marcus Vinicius de Moraes nasceu há cem anos. Em 19 de Outubro de 1913.
Diplomata, poeta, escritor, cronista, muito ligado à música popular brasileira (MPB) pelas suas letras e até foi crítico de cinema, Vinicius foi um homem das mil palavras. Era boémio, apreciador de tertúlias e whiskey. Era também um homem de muitos amores e paixões. Casou nove vezes!
Como quase toda a gente que o conhece é a sua faceta de poeta que mais nos marca.

Dele, existe um poema - Soneto da Fidelidade - que considero maravilhoso, em parte devido ao último terceto.
Recorro frequente ao último verso deste terceto, para eu perceber, para eu não me esquecer, para eu consiga apreciar os momentos, os instantes bons, porque são estes que mais se aproximam da felicidade.

Recorro a ele para que que eu consiga, que eu tenha o dom de os eternizar enquanto eles estão presentes, enquanto os tenho, enquanto estão na minha mão, à frente dos meus olhos, enquanto os consigo escutar e ver.
Tudo o que é bom, que é belo, é efémero. Acaba sempre cedo por muito que durem. A arte de os eternizar enquanto estão presentes é um privilégio
Quando eles cessam, quando se esfumam, será na nossa memória, nas sensações que causaram, que viverão e se manterão. A magia dos bons momentos será eterna.
E então terão sido infinitos enquanto duraram. 





Soneto da Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


domingo, 22 de setembro de 2013

bom dia Outono





Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, Diário X


sexta-feira, 21 de junho de 2013

porque hoje é Verão





XII

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...


Alberto Caeiro em O Guardador de Rebanhos


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pessoa 125




No dia em que se comemora o centésimo vigésimo quinto ano do nascimento de Fernando Pessoa, escolho um dos poemas para mim mais marcantes do poeta de todos nós.

Ler Pessoa é quase sempre entrar no seu âmago, no seu profundo eu, na sua alma de simplicidade complexa.
Este poema é talvez um dos poemas que sinto que veio mesmo de lá dentro, do seu interior abismal, das suas entranhas mais profundas, das minhas entranhas mais profundas.

Quando leio este poema a imagem que surge é a do menino que não queria crescer, o menino que vivia na Terra do Nunca, "Nesse impossível jardim". Não se crescia, tudo era simples.
As coisa sãos o que são. Mantêm a sua pureza, a sua ingenuidade. O próprio tempo é virginal.

Não há lugar aos porquês, porque não há necessidade do saber. É a terra dos sonhos impossíveis. A terra do Peter Pan. A minha terra.


Às vezes, em sonho triste

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

Fernando Pessoa
21.11.1909


Como gosto de ti Fernando Pessoa. Poeta das mil caras, das mil personalidades, onde cada uma delas é cada um de nós.



quinta-feira, 21 de março de 2013

No Dia Mundial da Poesia, um poema de... Alexandre O'Neill


O apelido O'Neill dá, talvez insuspeita, uma pista sobre a sua ascendência. Irlandesa.
Mas é em Lisboa a 19 de Dezembro de 1924 que Alexandre O'Neill nasce.

Em 1947 deixa-se fascinar pelo movimento surrealista de André Breton e Maurice Nadeau. Influenciado pelos seus manifestos funda o Movimento Surrealista de Lisboa.
Desse movimento além de O'Neill e convidados por ele, fariam parte António Pedro, Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria, Vespeira e José Augusto-França.

Publica em 1958 um dos seus livros mais famosos de poesia, No Reino da Dinamarca. É neste livro que o consagra como poeta e é onde se encontra o poema Um adeus português.
Conta a história do seu encontro e amor em 1949 com Nora Mitrani, uma surrealista francesa que vem a Lisboa a uma conferência sobre esse tema. 
Alexandre O'Neill e ela apaixonam-se e já em França Nora convida-o a ir ter com ela. Ele pede o passaporte ao governo civil de Lisboa e um elemento da sua própria família denuncia-o. O pedido é-lhe negado e o encontro nunca se concretizou, restando um amor frustrado.
O poeta nunca mais veria Nora e esta em 1961 cometeria suicídio. Em sua honra escreveria Requiem para Nora Mitrani.

Em 1959 estreia-se no mundo da publicidade criando vários slogans. Alguns nunca veriam a luz do dia pela irreverência do seu conteúdo e outros perdurariam até hoje. Um deles é o famoso - Há mar e mar, há ir e voltar.

Morre a 21 de Agosto de 1986 vítima de uma vida desregrada e de excessos. Uma série de acidentes vasculares cerebrais e ataques cardíacos prenunciariam a causa final da sua morte, ataque cardíaco. 

Ilustro o dia mundial da poesia com o poema onde o poeta descarrega a frustração do tal encontro com Nora Mitrani em Paris que nunca chegou a acontecer.


Um adeus português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já petrificada.

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor.

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver.

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da pressa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual.

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal.

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser.

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não da asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill


quarta-feira, 20 de março de 2013

Primavera




Quando vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensa que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Inverno






Velho, velho, velho
chegou o Inverno.

Vem de sobretudo
vem de cachecol, 
o chão por onde passa
parece um lençol.

Esqueceu as luvas
perto do fogão
quando as procurou
roubara-as o cão.

Com medo do frio
encostou-se a nós:
dei-lhe café quente,
senão perde a voz.

Velho, velho, velho
chegou o inverno.


Eugénio de Andrade


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Verão




A única coisa que me agrada no verão é pensar que só faltam três meses para o Outono :)


Panteísmo

Tarde de brasa a arder, sol de verão
Cingindo, voluptuoso o horizonte...
Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão
De um verso triunfal de Anacreonte!

Vejo-me asa no ar, erva no chão,
Oiço-me gota de água a rir, na fonte,
E a curva altiva e dura do Marão
É o meu corpo transformado em monte!

E de bruços na terra penso e cismo
Que, neste meu ardente panteísmo,
Nos meus sentidos postos, absortos.

Nas coisas luminosas deste mundo,
minha alma é o túmulo profundo
Onde dormem, sorrindo os deuses mortos!


Florbela Espanca

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Pessoa 124





Há 124 anos, a 13 Junho de 1888, talvez com um manjerico na sua mesa de cabeceira, nascia Fernando Pessoa, o poeta que eu gostava de pensar que escrevia só para mim e que me compreendia.

À medida que o tempo corria e fui conhecendo pessoas que se cruzavam mais ou menos etereamente na minha vida, percebi que afinal Fernando Pessoa compreendia e escrevia para toda a gente.


Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali,


Álvaro de Campos

quarta-feira, 21 de março de 2012

no dia Mundial da Poesia, um poema de... Florbela Espanca


Há poucos anos atrás, dizia em tom de brincadeira, mas a sério, que o maior dos poetas nacionais é Fernando Pessoa, a seguir há um extenso deserto e que depois dele surge Florbela Espanca.

Agora sem ser em tom de brincadeira continuo a afirmar que Pessoa é o maior entre os maiores e que Florbela Espanca surge depois, mas que o extenso deserto foi substituído por uma pequena orla de areia.
Quase como se ela se pudesse esticar toda e tocar ao de leve na mão de Pessoa.

São dois poetas diferentes, mas também muito iguais.
Em ambos se sente o peso e a força do destino, em ambos existe uma mente torturada e almas rasgadas, em ambos há uma consciência dolorosa da existência e em ambos existe algo que buscam e que não encontram.

Quem lê e gosta de Pessoa fica com a sensação que ele escreveu para cada um de nós, que há uma generalizada identificação muito pessoal com a sua poesia.
A poesia de Pessoa é tortuosa, complexa, esquizofrénica nos heterónimos, por vezes contraditória.

Mas Florbela Espanca já não. Ela escreveu para que nós percebêssemos o que sentia, mas não conseguimos perceber como se sentia.
Não escreveu para nós, mas sim acima de tudo para ela própria. Numa tentativa aliviar, talvez esconjurar o peso da sua existência, da fatalidade, do destino e da inevitabilidade do fim.
A sua poesia é inquieta, sombria e até violenta. Gosto de a descrever como visceral.

Se Fernando Pessoa se auto-desconstruiu em heterónimos para "escapar" à queda no abismo interior ou pelo menos para tornar o seu caminho mais longo, Florbela Espanca caminhou directo para lá.
Fumadora compulsiva, com três casamentos, dois divórcios e vários amantes, sofrendo de uma neurose e depressão crónica, nunca recuperando da morte do seu irmão Apeles Espanca, Florbela Espanca era uma mulher de versos tristes e melancólicos.
Os seus poemas são anúncios e prenúncios do que estaria para vir, o desenlace final, a acalmia e consolo que ela procurou, encontrou e concretizou à terceira tentativa, o seu suicídio.

Florbela Espanca morre, a última e derradeira oferta para si própria, no dia em que nasceu, 36 anos depois, a 8 de Dezembro de 1930.


Deixai entrar a Morte

Deixai entrar a Morte, a Iluminada,
A que vem para mim, pra me levar.
Abri todas as portar par em par
Com as asas a bater em revoada.

Quem sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!

Ó Mãe, Ó minha Mãe, pra que nasceste?
Entre agonias e em dores tamanhas
Pra que foi, dize lá, que me trouxeste

Dentro de ti?...Pra que eu tivesse sido
Somente o fruto amargo das entranhas
Dum lírio que em má hora foi nascido!...

Florbela Espanca



Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca



Mais poemas aqui e aqui.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da Mulher




Uma vez disseram-me que como eu não era mulher não sabia valorizar o Dia Internacional da Mulher, talvez.

Na verdade tal como eu, muitas mulheres pensam que este dia as secundariza em vez de lhes dar a força que merecem e que por vezes necessitam.
Do meu ponto de vista, é uma espécie de rebuçado que se lhes dá, quase uma esmola, pela subvalorização, falta de igualdade, de oportunidades e reconhecimento do seu papel na sociedade.

O verdadeiro dia da mulher é todo aquele em que esta se impõe pela força da inteligência, do saber fazer, pela competência, pela subtileza, por trazer a delicadeza e força que ser mulher e ser mãe pode trazer ao mundo que a rodeia.
Que o equilibro atinge-se quando a força da testosterona é moderada pela suavidade do estrogénio.
E aos poucos e poucos isto está acontecer. O que se está a passar nas faculdades é sintomático disso, a presença feminina é dominante.

Mas para as mais desconhecedoras, fiquem a saber que também existe o Dia Internacional do Homem - comemora-se a 19 de Novembro - que inteligentemente ninguém fala, mas que penso exactamente o mesmo que o seu congénere feminino. Não faz sentido existir.

De qualquer maneira e ainda pensando neste dia em particular, existe uma mulher que admiro muito, pela sua obra e naturalmente pela sua vida.
E através dela e da sua poesia homenageio a Mulher.
Curiosamente estreia hoje, o filme Florbela, um filme que nos mostra e revela a vida torturada dessa mulher que deu origem a uma das poesias mais viscerais, sofridas e violentas - na forma como revela os seus sentimentos e particularmente como vivia o amor - mas também uma das mais belas e delicadas que a poesia nacional tem para oferecer. Falo, claro, de Florbela Espanca.

Um dos meus poemas preferidos dela é este, mas no Dia Internacional da Mulher escolho outro poema dela.
Ele está pleno daquela visceralidade, revolta e violência emocional que lhe rasga o peito e a alma, que vem de dentro das suas profundezas e que tanto aprecio na poesia de Florbela Espanca.


A Mulher

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis:"Olhem, vejam
é aquela a infame!" e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!

II 

Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e de sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca