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sábado, 27 de abril de 2019

uma música para o fim de semana - Samuel Úria


A letra. Esta letra é fenomenal. Uma reflexão, um discorrer sobre o que é ser homem, o que é ser mulher. Principalmente sobre o primeiro.

A guitarra é tocada de uma forma muito económica. Dá tempo ao tempo, as suas frases são simples e recatadas e a banda está praticamente ausente, mas aos 4.34 tudo explode. Há exuberância e fulgor. A emoção não se contem mais, o que tem que ser dito, sai de rajada. Aos 05.22 este desabafo, esta incontinência cessa e a calmaria regressa.
Mas a letra, essa...


Bom fim de semana ☺




Empresta-me os teus olhos uma vez
Que os meus não são de gente, apenas a paz
É só o tempo de me aperceber
Na vida, o que se turva para ser de mulher
Empresta-me uma chávena de sal
E mostra-me a receita do caldo lacrimal
É só o tempo de te convencer
Que nem precipitado consigo chover
Não é um adágio que nos persegue
Que um homem só não chora porque não consegue
Empresta-me esse efeminado luto
Ser masculino é ter-se o lenço enxuto
É só o tempo de me maquilhar
De pranto transparente, a cor de mulher
Não nasci pedra, nasci rapaz
Que um homem só não chora por não ser capaz
Os homens fazem fogo
Com dois paus, eles fazem fogo
Por troca, ensino-te a queimar
Tu és corrente, e eu finjo o mar
Que um homem para que chore, não pode chorar
Que um homem para que chore, não pode chorar


sábado, 24 de novembro de 2018

uma música para o fim de semana - Samuel Úria


Gosto da tristeza, da dolência, da lentidão da voz Samuel Úria a cantar Vem de Novo.
Fez-me sentir saudades de quem já não volta.

A solidão não é não ter amigos, não é não ter quem olhe por nós. Solidão é quando se perde algo mais importante que nós próprios. É quando se sabe, se percebe que esse bocado a menos não será preenchido, não será recuperado. Será sempre um vazio.

É quando o vem de novo, jamais poderá acontecer porque o "de novo" é uma impossibilidade física.
Aí está-se verdadeiramente só. Mesmo quando há um milhão de pessoas à volta, porque nenhuma delas é o "de novo".

Vem de Novo é a quarta canção de um EP - Marcha Atroz - de Samuel Úria que ainda não tem um mês de lançamento.
É a segunda vez que Úria pisa o placo da Esteira.


Bom fim de semana ☺



VEM DE NOVO E se eu... E se eu me esquecer de ti? Mas não dessa forma que o fiz (Isso fui só eu a ser só eu). Mas, se se enrugar a noção do meu melhor, Vem, de novo, deseducar-me de estar só. E se tu... E se te apagares de mim? Mas não como às vezes pedi (Isso fui eu só a ser eu só). Ai, se se enrugar a noção do meu melhor Vem, de novo, curar-me o vício de estar só. E se o que eu pagar P’lo que não dormi For reencarnar Nas memórias de um puto sem jeito nenhum? E se o que eu pagar P’lo que já esqueci For perder o pavor de perder-te Por nem saber quem és? Pois, se se enrugar a noção do meu melhor, Venho, velho, desconhecer que nada sou. Mas se se enrugar a noção do meu melhor Vem, de novo, deseducar-me de estar só.



sábado, 10 de setembro de 2016

uma música para o fim de semana - Samuel Úria


Em 1920, o fisiologista norte-americano Walter Cannon teorizou que perante uma situação de ameaça, de stress, os animais, humanos incluídos, tinham uma de duas respostas possíveis: a luta, ou a fuga. Em inglês estas combinação de respostas é muito conhecida por fight or flight.
Agora sabe-se há uma terceira hipótese: o ficar quieto. Em inglês este termo é designado por freeze.
A resposta da paralisia, o freeze, é uma resposta de sucesso.

Significa que perante uma ameaça, o ficar quieto, é uma vantagem porque pode provocar desinteresse por parte do predador, do agente ameaçador. A fuga pode desencadear uma perseguição que por sua vez pode ser fatal, a luta em condições desiguais conduz à derrota e à perda de energia. O ficar quieto pode permitir a sobrevivência em situações em que esta possibilidade desta é muito baixa, até ao momento em que as condições evoluam para uma situação favorável de sucesso de fuga ou de luta.

A música para este fim de semana, Dou-me Corda, de Samuel Úria, é um hino ao desencanto, cantado com um encolher de ombros. Alguém que leva uma chapada sem fechar os olhos, ou virar o pescoço. Pensei de imediato no freeze.
A voz e letra pessimista mostram a sensação da quase inutilidade de lutar. Advoga o ficar quieto, estático, porque à partida o sucesso está condenado ao insucesso.
Samuel até coloca o futuro num pos-it para poder ser lembrado. Não há convicção nele, não há esperança nele.
Marionetas numa mão maior. Ou seja não faças ondas, não te mexas muito, fica quieto. Sobrevive.





Dou-me Corda

Eu tinha a corda na garganta afinada em dó
E outra corda no pescoço com um windsor knot,
Aperaltado alternativo a aspirar o Pop,
Mas com fascínio travestido de mulher de Ló.

Tenho o futuro num post-it que é para ser lembrete.
Pus os meus filhos na cantera mas nenhum promete.
O livre arbítrio fez voz grossa mas saiu falsete.
Mantive a Fé e o bom combate na carreira das 7.

Estou reservado para o lado que no fim se ri,
Mas nunca fico no meu canto sem sobrar pra ti.
Não vais chegar às notas altas sem um bisturi;
O auto-tune é tão bem vindo como o Pitanguy. 

E dou-me corda
E dou-me corda.
Eu dou-me corda que está presa numa mão maior.

Eu tenho a corda dos sapatos afinada em ré:
Não consigo andar prá frente plo meu próprio pé,
Nem com trotes nem trinados nem com a Santa Sé.
Falhou-me o auto-empurranço, é só cafuné. 

Eu dou-me corda
E dou-me corda
Eu dou-me corda que está presa numa mão maior.

Eu dou-me corda
E dou-me corda
Eu dou-me corda que está presa numa mão maior.