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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Ary dos Santos 33


Soneto

Fecham-se os dedos donde corre a esperança, 
Toldam-se os olhos donde corre a vida. 
Porquê esperar, porquê, se não se alcança 
Mais do que a angústia que nos é devida? 

Antes aproveitar a nossa herança 
De intenções e palavras proibidas. 
Antes rirmos do anjo, cuja lança 
Nos expulsa da terra prometida. 

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo, 
Antes o olhar que peca, a mão que rouba, 
O gesto que estrangula, a voz que grita. 

Antes viver do que morrer no pasmo 
Do nada que nos surge e nos devora, 
Do monstro que inventámos e nos fita. 


José Carlos Ary dos Santos


domingo, 19 de janeiro de 2014

Ary 30




Quando penso em Ary dos Santos, penso em alguém com voz tonitruante e exuberante que se impunha pela presença, pelas suas palavras. 
Alguém polémico, de ideais fortes. Alguém que seria difícil de derrotar numa discussão.
Seria alguém tipo... força da natureza.

Esta imagem mais do que em fotografias ou imagens na televisão são-me transmitidas pela força da sua poesia. 
Creio firmemente que a poesia não se finge - apesar de Fernando Pessoa aparentemente afirmar o contrário em "O Poeta é um fingidor"- ela é o espelho de quem a cria, de quem a imagina, de quem a concretiza.
A poesia, para quem tem esse dom, é a melhor maneira possível de conhecer alguém.
Ary dos Santos tinha também olho para a Vida. Observa-a de uma maneira particular, muito sentida, muito delicada. Dela retirava o que havia de mais violento e mais sublime.

A prova deste "crime" está em variados poemas como de Poeta Castrado, Não!, Estrela da Tarde, A Máquina Fotográfica, Os Gatos, Os Putos, e Quando um Homem Quiser.

Mencionei o último poema num texto para uma música para o fim de semana que escrevi em finais do ano passado quando escolhi uma canção dos Deolinda sobre o Natal.
O Natal já lá vai há quase um mês. Mas quando o tema é poesia, seja de Ary dos Santos ou de outro poeta qualquer, esta não tem limites temporais. É apenas invocada, recordada, recitada quando o queremos ou desejamos.

Aproveito a passagem do dia de ontem, sobre os trinta anos da sua morte - Ary dos Santos morreu em 18 de Janeiro de 1984 - do silenciamento da suas palavras escritas, bem mais poderosas que as suas faladas para trazer, para relembrar esse extraordinário poema feito simultâneamente de dor e delicadeza e cujo um verso se tornou parte do imaginário português - "Natal é em Setembro, é quando um homem quiser".


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão 

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Ary dos Santos